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Crise do Fies aumenta inadimplência nas universidades e diminui novas matrículas 

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05/11/2016 - Além de dificultar o acesso dos estudantes ao ensino superior, a crise no Fundo de Financiamento Estudantil, o Fies, aumentou a inadimplência nas universidades particulares. Em 2015, 8,8% dos estudantes das faculdades privadas estavam há mais de três meses com mensalidades atrasadas, segundo o Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior. Foi a primeira alta em sete anos. Em 2009, começou a ser registrada uma sequência de quedas de alunos devedores. Mas a melhora foi interrompida no ano passado, quando o governo mudou as regras do Fies. Mesmo sem conseguir o benefício, muitos estudantes resolveram se matricular em cursos universitários e não conseguiram arcar com os custos, o que afetou as contas, principalmente, de faculdades médias e pequenas. Para se adaptar ao novo momento e não perder alunos, a Universidade Castelo Branco, no Rio, por exemplo, criou o próprio fundo de financiamento, além de bolsas filantrópicas, como conta o analista financeiro da instituição, Júlio Fernandes.

"Nós conseguimos vinculá-los a algum programa dentro da instituição, como o financiamento estudantil que é da própria universidade. Temos outros tipos de financiamento e bolsas filantrópicas. Nós ampliamos para dar chance aos novos alunos. Muito ficaram desempregados".

A diminuição do número de matrículas e o aumento da evasão escolar também podem ser fruto das mudanças no Fies. Pela primeira vez em cinco anos, a entrada de novos estudantes nas universidades diminuiu. A queda na rede privada foi de 6,9%, contra 2,6% na pública, segundo o Censo da Educação Superior, do Inep. Desde março do ano passado, o Fies passou a exigir nota mínima de 450 pontos no Enem, além de mais de zero na redação. O critério descarta a possibilidade de cerca de dois terços dos candidatos pedirem o financiamento. Gabriel Cardoso teve que abandonar o curso de Engenharia Elétrica após já ter feito a matrícula porque não se enquadrou nas novas exigências. A faculdade pediu o pagamento de duas mensalidades e, por não poder pagar, ele trancou a matrícula.

"Desde maio que eles tinham cancelado minha matrícula. Eu já estava com dois meses atrasados. Falaram que se eu não pagasse os dois meses, eles iriam me tirar da faculdade. Eu não tinha como pagar e acabei trancando para ver se eu conseguiria voltar depois".

A queda repentina das matrículas pelo Fies deixou muitas faculdades endividadas. Segundo o diretor executivo do sindicato que representa essas instituições, Rodrigo Capelato, enquanto o Fies e o Prouni cresciam, os diretores resolveram investir e ampliar a infraestrutura. Porém, agora, com o aumento da inadimplência e a redução dos programas, o retorno dos investimentos ficou mais distante.

"As instituições vinham se preparando para um crescimento que vinha acontecendo desde 2010, com o financiamento estudantil bastante alto. Então muitas investiram na ampliação da infraestrutura, em novos laboratórios e novos prédios. De repente, de um ano para o outro houve uma queda muito forte e várias se endividaram".

Em 2014, o Fies ofereceu mais de 700 mil vagas. O número caiu para 287 mil no ano seguinte. Este ano, 148 mil contratos foram firmados, 41% do anunciado pelo governo. O CEO da Hoper, que presta consultoria especializada no mercado de educação, William Klein, avalia que o crescimento do Fies foi muito rápido, o que tornou o programa insustentável. Ainda segundo o especialista, para ter uma boa saúde financeira, uma faculdade particular precisa ter, no máximo 25% das matrículas através do Fies. Mas há instituições em que o total de beneficiados chega a 70%. 

"Toda a instituição de ensino que tem mais de 25% dos matriculados usando o Fies etsá correndo risco. Já era previso em 2014 que o crescimento que o governo vinha fazendo não seria sustentável".

Além da dificuldade de acesso ao ensino superior, os estudantes que conseguem entrar na faculdade enfrentam problemas para se manter. Quase metade dos estudantes (49%) que entraram em 2010 desistiram do curso. As taxas de desistência têm crescido ao longo dos anos. As mudanças do Fies resultaram em evasão escolar já em 2015. Além disso, o aumento do desemprego levou mais jovens a buscar trabalho para ajudar suas famílias, deixando a faculdade em segundo plano. Luiz Felipe Ribeiro, morador da Baixada Fluminense, conta que abandonou a PUC, na Zona Sul do Rio:

"Para conseguir ajudar em casa e me sentir participando das coisas. Não quero ser um fardo com meu sonho. Tem que entender até onde nosso sonho atrapalha a realidade dos outros".

No dia 19 de outubro, o governo abriu as inscrições para renovação do Fies no segundo semestre após o Congresso aprovar o projeto que deu crédito extra de R$ 700 milhões para o Fundo. Os repasses do governo para as universidades estavam atrasados há quatro meses, por causa de dívidas que o governo tinha com a Caixa e com o Banco do Brasil.

Fonte: Portal CBN

Fonte secundária: CM Consultoria