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Demanda por educação financeira aumenta

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27/07/2015 - Motivos das famílias vão de busca para sair do endividamento até desejo de planejar futuro, com foco na aposentadoria

Adriana Lampert

DSOP EDUCAÇÃO FINANCEIRA/DIVULGAÇÃO/JC 

Bancar custo de vida com despesa maior que receita é situação comum, relata Domingos

Alta da inflação, aumento do desemprego e anúncios de crise em diversos setores são três aspectos que têm impulsionado a demanda dos gaúchos por serviços de orientação financeira. Segundo levantamento da reportagem do Jornal do Comércio, desde o primeiro trimestre de 2015, o número de pessoas físicas que têm buscado ajuda de profissionais para estabilizar o orçamento aumentou em pelo menos 50%.

E, de fato, para evitar se afundar em dívidas, ou simplesmente conscientizado de que o cenário econômico está diferente dos anos anteriores, quem não viu a renda aumentar, mas mantém altos gastos fixos mensais, pode encontrar um alento no planejamento e na mudança de hábitos de consumo. Pelo menos, este é o principal recado difundido por profissionais que trabalham com educação financeira. Mas apesar de parecer uma medida simples, esta é uma missão desafiadora, garante a arquiteta Fátima Bogado, 36 anos. Há um ano, ela e o marido, Rafael Leite, analista de mídias sociais, têm buscado manter o controle dos gastos familiares, sob a orientação de uma consultora especializada em finanças pessoais. "Conseguimos sair do vermelho. Mas a meta principal, que é poupar dinheiro, ainda está difícil de atingir", admite.

Dentre as iniciativas do casal, que inicialmente precisou fazer um "raio X" das contas a pagar, reunindo extratos bancários e dos cartões de crédito, o primeiro corte envolveu a faxina doméstica. Ao invés de pagar alguém para fazer a limpeza da casa, os dois passaram a dividir as tarefas. Também foi realizada uma troca de planos de celular, de telefone fixo e do pacote de internet, buscando alternativas mais econômicas entre as operadoras. "Ainda reduzimos as viagens e passamos a aproveitar as promoções das agências e os benefícios dos cartões de crédito e débito (como uso de milhas para compra de passagens)." Os critérios de diminuição de custos apenas não entraram nas despesas com plano de saúde e na mensalidade da escola do filho Juan, de 2 anos e 8 meses. "Poderíamos migrar para possibilidades que ficassem mais em conta, mas destes gastos não abrimos mão. Preferimos dar prioridade à saúde e à qualidade da educação do Juan", explica a arquiteta.

"É sempre fundamental evitar gastar mais do que se ganha", adverte o coach e educador financeiro Cláudio Henrique Tenroler. "Ao diagnosticar o comportamento de consumo, uma família deve ficar atenta ao fato de que, se não está sobrando dinheiro no final do mês, é sinal de que se está vivendo fora de um padrão financeiro saudável." A saída vai ao encontro da solução aplicada por Fátima e o marido: rever as despesas e cortar o supérfluo. Tenroler dá uma dica: "Teoricamente, 30% do que se gasta mensalmente é direcionado para pequenas despesas que, em geral, passam despercebidas, como um lanche na rua ou um cafezinho."

Evitar consumir por impulso ou desperdiçar energia elétrica, telefone e água pode fazer muita diferença. "Há quem não se dê conta de que não é preciso deixar todas as luzes acessas em casa, quando se está usando apenas um ambiente. E dentro do conceito de sustentabilidade, é preciso estar atento também à compra de alimentos perecíveis em excesso, que, muitas vezes, por passarem da validade, não são consumidos e acabam na lata de lixo", observa o coach.

Tenroler pondera que é possível cortar despesas sem gerar desmotivação. Manter o hábito de ir ao cinema, por exemplo, é salutar. Mas pontuar um dia de gasto zero pode ajudar na economia em prol do equilíbrio do orçamento, sinaliza a analista do Estúdio de Finanças da Pucrs, Nahiane Pastro. "Muitas vezes, é no fim de semana que se extrapola nos gastos. Uma dica é, ao menos uma vez ao mês, trocar os gastos em shoppings e restaurantes por um passeio no parque, uma visita a amigos ou a prática de esportes." Planejar um dia diferente, segundo Nahiane, é válido para, em tempos de consumismo extremo, se perceber que é possível desfrutar de bons momentos, sem custos para o bolso.

Mudar comportamento de consumo é essencial para equilibrar contas, apontam especialistas
Desde o início do ano, o coach e educador financeiro Cláudio Henrique Tenroler tem visto a cartela de clientes crescer em todo o País. Em geral, quem o procura são profissionais liberais, com perfil de endividamento, incluindo o comprometimento com parcelas a longo prazo, vinculadas à compra de imóveis ou veículos. "São pessoas que vivem sem reserva de futuro, nem sequer uma poupança", diz o profissional. É exatamente este o ponto que ele tenta reverter. "O primeiro passo é identificar quanto cada despesa representa no orçamento para, a partir disso, mudar o comportamento de consumo e mapear sonhos de curto, médio e longo prazos", resume Tenroler. 

Ele aplica o método DSOP (Diagnosticar, Sonhar, Orçar e Poupar), criado pelo presidente da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos, autor de vários livros sobre o tema.

Em todo o País, pelo menos 650 educadores financeiros profissionalizados pela metodologia DSOP têm atuado dentro de grandes organizações, a exemplo da varejista Magazine Luiza, capacitando multiplicadores em departamentos de Recursos Humanos, que atendem os funcionários das empresas. "Também capacitamos pessoas em órgãos públicos e escolas", detalha Domingos. Ele explica que o foco da metodologia passa longe de planilhas. "A ideia é lidar com hábitos e costumes."

De acordo com Domingos, bancar um custo de vida em que a despesa é maior que a receita e ter acesso fácil ao crédito são duas situações comuns nas mãos de muitos brasileiros que ainda não estão educados financeiramente, que podem ter efeitos colaterais graves. "Os funcionários públicos estão entre os mais endividados, devido à facilidade de crédito para o segmento", completa a analista de educação financeira da Pucrs, Nahiane Pastro. "Muita gente tem se endividado e caido na inadimplencia. Atualmente, há no País 150 milhões de pessoas nesta condição."

Domingos aconselha que as famílias façam um diagnóstico financeiro "honesto", colocando na ponta do lápis tudo que gastam durante 30 dias seguidos. O segundo passo é estipular metas curtas e médias, além de um projeto de vida, focados em períodos de um, dois a nove e acima de 10 anos. Depois, além de reduzir gastos supérflos, é preciso separar parte do ganho mensal para aplicações em diferentes níveis (poupança, CDB e Previdência Privada, por exemplo) e acumular o valor necessário para realizar estes sonhos.
Fonte: jcrs.uol.com.br