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Educação e luta de classes

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05/10/2015 - Wilson Valentim Biasotto

Durante os meus estudos no ensino fundamental vivi uma experiência gratificante. Itápolis, onde estudei, não tinha escolas particulares e, na pública, estávamos juntos, o filho do empresário, do bancário, do trabalhador braçal. Já no ensino médio, em Catanduva, tendo que estudar à noite e trabalhar durante o dia notei diferença: os filhos das pessoas mais abastadas estudavam durante o dia, gerando diferença significativa.

Com a expansão do ensino público (anos de 1970), a falta de professores fez com que a qualidade caísse e, então, proliferaram as escolas particulares oferecendo vagas desde o maternal até a faculdade. O paradoxal é que as escolas particulares de ensino médio ensinavam melhor que as do ensino público, todavia as universidades públicas sempre foram melhores em qualidade do que as particulares, então as universidades públicas passaram a selecionar apenas os oriundos do ensino médio particular.

Atualmente com a melhoria das escolas públicas de ensino fundamental e médio e com o estabelecimento das cotas, já não chegam à universidade pública apenas os alunos que puderam pagar boas escolas particulares do ensino médio e já se estabelece no ensino superior uma convivência entre categorias sociais distintas. No entanto, no ensino fundamental e médio, prevalece uma distinção muito grande. Para o ensino público vão os oriundos da classe trabalhadora, para o ensino particular filhos das categorias mais privilegiadas.

Conclusão, o rico não convive mais com o pobre. E, sem essa convivência, que era enriquecedora, temos hoje o aumento do preconceito e da discriminação.
Se o caro leitor discordar do meu raciocínio convido-o a ler um artigo de Claudia Valim, “O que o Brasil pode aprender em Educação com a Finlândia”, publicado no Diário do Centro do Mundo.

A autora nos ensina que no início dos anos de 1970, mas com grande ênfase a partir dos anos 90, a Finlândia promoveu uma reforma no ensino, estabelecendo o ensino público para todos e, assim sendo, o filho do lixeiro e do empresário estudam juntos, na mesma escola, na mesma sala. Os resultados começaram a aparecer 30 anos depois e hoje “a Finlândia transformou um sistema educacional medíocre, elitista e ineficaz (...) em uma incubadora de talentos que alçou o país para o topo dos rankings mundiais de desempenho estudantil, e alavancou o nascimento de uma economia sofisticada e altamente industrializada onde antes jazia uma sociedade substancialmente agrária”.

Quando Dourados era uma Cidade Educadora, conheci o projeto da professora Cristina, do CAIC, em que os alunos de sua sala trocavam cartas com alunos de uma escola da reserva indígena e, ao final, se visitaram. Quero dizer que, se não dá para fazermos igual a Finlândia, ao menos que façamos alguma coisa criativa como a citada, para contribuirmos para que a luta de classes não chegue um dia a ser luta armada. Pois, convenhamos, atualmente com esse apartheid estamos estimulando o preconceito e a intolerância, já transformada em ódio, que se manifesta de maneiras variadas.

Não é à toa que a crise política brasileira é maior que a crise financeira. Os representantes da classe dominante estão procurando sufocar o governo federal que tentou com sucesso, nos últimos 14 anos, implementar um pouco mais de justiça social ao nosso sofrido povo trabalhador.

Difícil esperar para o curto prazo uma reforma semelhante a da Finlândia no Brasil. Na Finlândia houve resistências no começo, mas hoje, contrariando os conceitos existentes no mundo capitalista, os professores finlandeses são valorizados, as salas são compostas no máximo com vinte alunos, nas séries iniciais as aulas propriamente ditas não duram mais do que duas horas e o restante do tempo é dedicado a atividades muito variadas.

Tivemos um sonho semelhante em Dourados: criaríamos centros culturais em todas as nossas escolas para que as crianças desenvolvessem atividades diversas (dança, canto coral, música instrumental, teatro) e utilizaríamos um de nossos parques para abrigar um grande Centro Cultural que reuniria os melhores talentos em cada área cultural ou desportiva para termos assim o ensino integral que desenvolveria uma geração menos sujeita aos vícios da sociedade contemporânea.

Pena que a Finlândia esteja muito distante.
Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: biasotto@biasotto.com.
Fonte: progresso.com.br