Artigos

Entrevista: 'É necessário avançar para a aprendizagem’, diz representante do Ministério da Educação

 

21/06/2017 - RIO- Reduzir as desigualdades na formação dos alunos. Para alcançar tal objetivo, o Chile revê mais uma vez seu ensino médio. Em São Paulo para participar do Seminário Internacional Desafios Curriculares do Ensino Médio: flexibilização e implementação, realizado pelo Instituto Unibanco hoje e amanhã, Verônica Salgado, secretária executiva de Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação do Chile, falou ao GLOBO sobre as propostas de mudança no sistema educacional chileno.

O que vocês pretendem reformar e o que esperam?

O ensino médio no Chile tem uma duração de quatro anos. Nos dois primeiros, todos têm as mesmas disciplinas. Nos últimos dois anos temos um sistema de diferenciação, e os alunos optam por percursos científico-humanísticos, artístico ou técnico profissionalizante. No entanto, nesses anos finais a carga horária de cada disciplina varia e disciplinas de caráter mais intelectual, como linguagem, matemática, ciências naturais têm maior carga horária em detrimento de outras como arte, esporte, música. Hoje o que se propõe é que todas as disciplinas tenham o mesmo peso, que não haja disciplinas de quinta categoria. Queremos sinalizar que todas as escalas de aprendizagem são relevantes para nossos estudantes.

Especialistas apontam desigualdades no sistema educacional chileno. Como evitar acentuá-las a partir da reforma?

O sistema educacional do Chile é muito desigual. Um dos objetivos é dar igualdade às metas de formação dos estudantes, aos objetivos de aprendizagem. Há estudantes que seguem um caminho técnico-profissional e têm a expectativa de chegar à educação superior, assim como estudantes que seguem uma carreira científico-humanística e vão se integrar ao mundo do trabalho. No currículo atual, os estudantes têm distintas formações. O principal da proposta é que todos estudantes do ensino médio tenham as mesmas oportunidades de aprendizagem, independente do lugar onde vivem, da escola que estudam, ou da diferenciação que tenham escolhido.

A partir da sua experiência no Chile, como você avalia a reforma proposta no Brasil?

O currículo latinoamericano está apontando para o trabalho de competências, que ensinem os estudantes não só a reproduzir conteúdo e estudar para prova, mas a desenvolver competências que os ajudem em seu trabalho, sua vida estudantil e cidadã. Nesse contexto, a lógica é adequada e atualizada. Mas acredito que o apoio na implementação é fundamental para que essa proposta tenha sucesso. Muitas vezes há grandes diferenças entre o currículo prescrito e o que é implementado. E nesse caso o professor é um ator fundamental. É necessária também uma mudança de paradigma: a lógica de avançar do ensino para a aprendizagem, ou seja, abandonar a prescrição do que o professor tem que ensinar e avançar até o que o estudante tem que aprender.

No Brasil, a reforma do ensino médio foi proposta por meio de uma Medida Provisória. Isso pode prejudicar a implementação?

Acredito que sim. Os protagonistas são os estudantes e considerar inclusive a voz deles é fundamental. O professor é um pilar essencial para levar a cabo uma reforma, porque ele é o dono da sala de aula. Então, sua experiência relacionada à voz de especialistas, com aqueles que se dedicam a fazer políticas públicas, é uma contribuição relevante. Eles estão diariamente em classe. Há uma alta probabilidade que uma proposta que tenha sido trabalhada desde um processo de consulta e participação tenha maior sucesso que uma que não tenha feito isso.

Publicidade

O que o Brasil pode aprender com o Chile nesse aspecto?

Acredito que estamos em momentos diferentes. Quando um país se debruça sobre uma reforma curricular há muita expectativa de mudança. Nas políticas públicas temos que deixar claro que as mudanças tomam tempo. Não podemos esperar que a escola incorpore isso de um dia para outro. A ampla variedade de contexto tornam muito mais complexas essas transformações. A política pública se constrói passo a passo, considerando as metas que queremos alcançar, mas avançando paulatinamente para o cumprimento dela. Senão o sistema também se coloca na defensiva e isso também gera desistência.

Na sua opinião, a qual aspecto o Brasil deve dedicar maior atenção quando iniciar a implementação da reforma no ensino médio?

A articulação do sistema é fundamental. Muitas vezes, o Estado chega à escola de maneira muito distinta e por agentes diversos, e isso faz com que a escola não saiba como reagir a essas diferentes mensagens. Uma boa articulação entre os diferentes componentes do estado que vão apoiar a implementação contribui para que a escola saiba que há uma mensagem clara e não contraditória. A consistência das mensagens que se envia à escola é fundamental para a credbiilidade da reforma e cimentar o caminho para a implementação.

Recentemente o Chile enfrentou uma onda de protestos pedindo reformas e se opondo às medidas da presidente. Quais serão os próximos passos do Ministério da Educação?

O Ministério da Educação está desenvolvendo uma iniciativa concreta para avançar no acesso universal do ensino e contra o lucro, que são demandas muito estruturais do movimento estudantil. Há avanços significativos. A gratuidade é uma realidade que nosso país já está vivendo e que está se desenvolvendo paulatinamente.

Fonte: Portal Globo