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Geração Y é espelho da crise do capital 

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12/03/2016 -SILVIA FEOLA

O jornal inglês The Guardian fez uma matéria enorme essa semana sobre os dilemas da Geração Y, os chamados “millennials”, a geração daqueles que têm hoje entre 20 e 35 anos de idade.

Jovens de classe média que cresceram com a expectativa de que o futuro dentro da nossa sociedade poderia ser construído seguindo um caminho certo e seguro, o da formação universitária, e que hoje se deparam com a falta de perspectivas confiáveis e duradouras.

Para começar, é claro que vale destacar que o nome “millennials” só cabe àqueles que têm ou tiverem acesso à tecnologia desde muito cedo. Só isso já coloca uma exclusão social absurda, principalmente numa sociedade tão dispare como a nossa brasileira.

“Millennials” é, principalmente, a representação que se construiu dos jovens da classe média em países cujo sistema capitalista está mais desenvolvido. Isso significa dizer que os “millennials” é a geração que abraça as consequências do liberalismo implantado no fim da década de 1970, e do neoliberalismo que surgiu quase como a única alternativa econômica nos anos de 1990.

Diante das mudanças trazidas pelo livre-mercado, está principalmente a desindustrialização dos países dito desenvolvidos, diante da qual empregos considerados tradicionalmente estáveis rumaram em direção à China.

Essas mudanças, aliadas ao avanço tecnológico, impuseram novas formas de trabalho, como o freelancer e o multi-tasking: o primeiro coloca o trabalho como algo totalmente volátil, e o segundo sobrecarrega em um único empregado uma série de funções, sem que esse receba necessariamente um salário correspondente à quantidade de tarefas.

Não à toa, vivemos a geração da instabilidade: profissional, financeira e, como não, também emocional.

Tanto por isso, essa é uma geração que fez da terapia uma mercadoria como outra qualquer, um bem de consumo que visa a uma vida melhor, e não um tratamento para “desvios comportamentais”.

Fazer terapia nos dias de hoje é como fazer ginástica.

E a sensação é a de que estamos constantemente “brincando de ser adultos”, como afirma o personagem de Ben Stiller no filme de Noah Baumbach, Enquanto Somos Jovens.

A jornalista freelancer – claro – Nell Frizzell colocou muito bem a questão quando disse que os “millennials” vestem-se como trabalhadores em parte pela própria vergonha de nunca terem aprendido um ofício. Na opinião dela, o macacão é uma das peças mais fashions dos últimos anos porque estamos tentando comunicar através da moda a nossa nostalgia de tempos passados em que empregos e sindicatos garantiam uma estabilidade financeira que hoje não temos mais. E dá para dizer que ela tem um ponto quando diz isso.
Embora os “millennials” representem a crise do trabalho, eles não são os únicos que sofrem com ela.

O artigo mais ponderado sobre a ascensão de Donald Trump nas prévias das eleições norte-americanas desse ano é do analista político Thomas Frank. Ele tenta mostrar que o impacto das falas do empresário-apresentador-tornado-político está justamente no fato de que ele culpa o livre-mercado pela falta de oportunidades econômicas e de trabalho dos norte-americanos comuns. O racismo e a xenofobia que essas contêm seriam secundárias, perto do afago que a classe média sente ao ouvir que seus empregos foram levados para outros países e que ele é o cara que vai dar um jeito nisso.

As informações e opiniões expressas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO, confira em http://brasil.estadao.com.br/blogs/cotidiano-transitivohttp://www.portalsoma.com.br/noticias/brasil/http://www.iberoamerica.net/brasil/prensa-generalista/estadao.com.br/; Notícia publicada, também, no Portal www.cmconsultoria.com.br 

Figura: Google