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Inadimplência na sala de aula

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FELIPE CASTANHEIRA

Os efeitos da crise econômica ecoam pelos corredores das instituições privadas de ensino superior do país. Um levantamento feito pela Serasa Experian mostra que a inadimplência dos alunos cresceu 16,5% em 2015, cenário que mostra uma situação complicada para estudantes e faculdades.

Prestes a se matricular no sétimo período do curso de ciências contábeis da PUC-Betim, Thais Nogueira se viu impossibilitada de seguir os estudos. O aumento de 9% nas mensalidades se tornou um obstáculo que ela não pôde contornar. A estudante já enfrentava dificuldades para pagar três mensalidades em atraso, e o novo empecilho adiou o esperado diploma. A solução foi trancar o curso.

“Foi uma decisão difícil, faltam só dois períodos para concluir. Mas não teve jeito, isso é como uma bola de neve. Eu não tinha nem o dinheiro para a matrícula”, relata. Estudante do turno noturno e já trabalhando na área, Thais é a responsável por pagar o próprio curso.

Esse é justamente o padrão mais afetado, explica o presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (SINEP/MG), Eniro Barbini. “Estamos observando um aumento de evasão de aproximadamente 40% em relação ao ano passado. Principalmente nos turnos da noite, onde as pessoas trabalham o dia inteiro e pagam a faculdade. Como a crise está apertando, então tem muita gente trancando os cursos”, explicou.

Barbini relata que existem casos de faculdades que enfrentam 35% de inadimplência dos estudantes. “Essa é a pior crise no setor nos últimos 30 anos”, descreve.

O representante das instituições de ensino relata que as universidades estão buscando diversas soluções para o problema.

Algumas chegam a oferecer o pagamento de um semestre para os alunos caso eles sejam demitidos. Entre as soluções mais habituais estão o financiamento interno ou externo para os estudantes e também o parcelamento da dívida.

Proposta no cartão. Thais recebeu a proposta de dividir no cartão de crédito os valores atrasados, desde que a matrícula fosse paga. “Só que não adiantava. Primeiro porque eu não tinha esse dinheiro todo, teria que pegar emprestado. Mas aí, quando eu voltasse para o curso, ia ter as dívidas do cartão de crédito e as mensalidades atuais para pagar”, conta.

A estudante afirma que pensa até em mudar de curso, mas que quer tirar um diploma.

Envolvidas em problemas como falta de pagamentos e desistências, as faculdades chegam a fundir duas ou três turmas para economizar. O que resulta em aulas com menos qualidade e demissão de professores. Mas isso não resolve o problema. “Já existem vários casos, principalmente no interior, mas também na capital, de insolvência das empresas de ensino”, relata Barbini. “Por causa da crise, muitos acabam tendo que desistir do sonho de se formar”, lamenta.

Motivos

Alta. O aumento da inadimplência com escolas de ensino superior em 2015 teve como causa o cenário econômico com taxas de inflação, de juros e de desemprego bem mais altas em 2015.


Crédito difícil agravou situação


 

A diretora da Faculdade Batista de Minas Gerais, Thaís Lacerda, aponta a redução dos planos governamentais voltados para o financiamento da educação superior como um dos problemas enfrentados pelas instituições e também pelos estudantes de menor poder aquisitivo. 

 

Segundo ela, as mudanças no Programa Universidade para Todos (ProUni) e no Fundo de Licenciamento do Estudante do Ensino Superior (Fies) fazem que os estudantes sejam obrigados a abrir mão destes instrumentos. Posição que também é compartilhada pelo presidente do Sindicato das Escolas Particulares, Eniro Barbini. 


Thaís Lacerda conta que a solução encontrada pela rede Batista de educação foi fazer a negociação individual com os alunos. O objetivo é conseguir incentivar os estudantes a continuarem nos cursos.
 

Ela afirma que são oferecidos descontos, opções de parcelamento e financiamento interno. De acordo com a diretora, a opção de financiamento interno tem gerado “uma insegurança muito grande”. “O problema são as perspectivas futuras”, explica Thaís.
 

Esclarece ainda que não tem o número exato de inadimplentes, mas confirma o aumento. “Acredito que giramos entre 11% e 12% de estudantes nesta situação”, relata. 

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Fonte: Jornal O Tempo

Foto: crédito Jornal O Tempo