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Opinião: O modelo de universidade no Brasil ficou muito atrasado

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24/06/2015 - Para Luiz Bevilacqua, desafios são choque semelhante a uma onda do mar, que impossibilita o caminhar lento e exige preparo e ousadia para “surfar”. Mas, na avaliação do atual reitor da UFABC, Klauss Capelle, a Universidade hoje corre risco: “estamos exigindo demais em tempo de menos”

Alta velocidade das mudanças científicas e tecnológicas, pressão da globalização, transformações econômicas e sociais, crescimento de demanda por vagas e queda de investimento governamental constituem desafios deste século que as universidades precisarão enfrentar. Para o ex-coordenador do comitê de estruturação acadêmica e implantação da Universidade Federal do ABC (UFABC), Luiz Bevilacqua, os desafios são um choque semelhante a uma onda do mar, que impossibilita o caminhar lento e exige preparo e ousadia para “surfar” nesse oceano de mudanças constantes que se impõem ao ensino superior.

Na primeira década desse milênio, o número de universitários no mundo quase dobrou: de 100 milhões para 190 milhões em 2011, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). No Brasil, em dez anos, o salto foi de 3 milhões para 7 milhões, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, vinculado ao Ministério da Educação). A expansão da universidade impõe maiores gastos ao governo e, consequentemente, cobrança mais intensa por benefícios imediatos à sociedade. Segundo Klauss Capelle, atual reitor da UFABC, hoje se exige muito das universidades: inovação tecnológica, empreendedorismo, internacionalização, inclusão social, sustentabilidade, educação secundária, envolvimento com educação a distância e, ao mesmo tempo, que levante recursos para tudo isso.

“A universidade hoje corre risco, porque estamos exigindo demais em tempo de menos. Mas não é um cenário catastrófico. Ao longo de sua história, passou por várias crises e demonstrou que é resiliente, porque conta com dois aliados: a evolução tecnológica e do próprio conceito de organização da universidade”, observou Capelle durante o debate O Futuro das Universidades, no dia 24 abril, realizado no Instituto de Estudos Avançados da USP.

“Quando se fala em universidade do futuro, vai depender muito das condições locais de cada país. O modelo de universidade no Brasil ficou muito atrasado com relação aos outros. Estamos quase com uma universidade do passado”, alerta Bevilacqua.

Contra a ‘prisão da especialização’

Professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há dez anos Bevilacqua foi convidado pelo então Ministro da Educação, Fernando Haddad, para criar e coordenar a equipe que formulou o projeto acadêmico da UFABC. Considerado inovador e vanguardista, o projeto colocava em prática as propostas da Academia Brasileira de Ciências compiladas nos “Subsídios para a Reforma do Ensino Superior”, de 2004.

A UFABC traz, assim, novidades como a organização da Universidade em três centros – Ciências Naturais e Humanas; Matemática, Computação e Cognição e Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas –, matrícula do aluno na universidade, e não em um curso específico, e a convergência disciplinar. Realiza, enfim, um plano de uma universidade com mais liberdade, que só foi possível ser implementado em uma instituição que começava do zero.

“Precisamos ser às vezes um pouco rebeldes. Foi esse o caso da UFABC. Como ninguém acreditava muito nessa instituição quando foi criada, ela ficou fora do foco. E como ninguém falou nada, conseguimos fazer alguma coisa que hoje é exemplo para o Brasil. Precisa haver u m pouco de ousadia”, diz Bevilacqua, que foi reitor da Universidade entre 2007 e 2008. Hoje, a UFABC figura entre as melhores do País em número e impacto de publicações, desempenho no Enad e sucesso na internacionalização.

O professor coloca quatro princípios básicos que sustentam esse novo modelo de universidade. Primeiro, que seja um lugar de aprendizado, e não ensino, reformulando linhas curriculares, com a redução do número de aulas e promoção de espaços comunitários de estudo. Segundo, uma reforma profunda nas linhas curriculares fundamentais, que leva para a graduação o modelo do que se faz em pesquisa. Terceiro, considerar aspectos qualitativos, e não quantitativos nas suas avaliações. E quarto, promover a convergência multidisciplinar por consequência do avanço do conhecimento, ao invés de forçar uma interdisciplinaridade em estudos.

Essa universidade com mais liberdade e autonomia está longe de ser a norma no Brasil. Segundo Bevilacqua, seguimos presos à especialização dos cursos. “É um sistema de tal modo especializado que, no caso das engenharias, se faz o concurso para engenharia civil, mecânica etc. Só isso já é um atraso”, diz. A rigidez é também um desafio para a interdisciplinaridade, especialmente na graduação. Os cursos ainda oferecem disciplinas restritamente elencadas – há mais de 50 anos.

O modelo novo, dessa forma, simplifica o existente, tornando-o, por consequência, mais dinâmico e flexível. “O que vejo de mais importante nessa universidade do futuro é liberdade maior para os estudantes escolherem suas próprias profissões. Não se pode definir hoje a profissão que os futuros egressos ocuparão. É impossível hoje a universidade formar estritamente para uma profissão. Então é importante a universidade dar ao estudante a liberdade, uma maior abertura na escolha de seu próprio currículo. Certamente com um núcleo básico fixo, que seria a marca do curso”, comenta.

Grã-Bretanha e Estados Unidos

Fora do Brasil, cada país enfrenta seus desafios próprios, mas a preocupação é comum: que rumo dar às universidades? O jornal especializado americano The Chronicle of Higher Education publicou recentemente dois artigos que discutem esses caminhos, “The Slow Death of the University”(A morte lenta da Universidade), de Terry Eagleton, professor emérito da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e “Rebirth of the Research University” (O Renascimento da Universidade de Pesquisa), escrito pelo chancellor da Universidade da Califórnia, Berkeley (EUA), Nicholas Dirks.

Ambos problematizam o papel da pesquisa nas universidades; o primeiro faz um panorama da situação atual das universidades britânicas. Segundo seu argumento, essas instituições tornaram-se reféns da busca por financiamento, por meio de pesquisa e indicadores, negligenciando o ensino. Segundo Eagleton, a paulatina redução de verbas do governo britânico, em decorrência do crescente número de estudantes na educação superior (hoje 49% dos jovens britânicos ingressam nas universidades), criou uma configuração empresarial, na qual professores tornaram-se gerentes e os estudantes, consumidores. Pesquisa “aplicada” e número de alunos são, portanto, a forma de angariar recursos.

Para o professor da Lancaster, o impacto da universidade na sociedade está sendo medido sob uma lógica perversa – o mérito acadêmico é aferido pela quantidade de fundos que a pesquisa levanta; e o aluno definido por critérios de empregabilidade. Essa lógica “de mercado” está levando a uma morte lenta da universidade como centro de crítica humana. Esta é uma herança americana, de instituições empreendedoras pós-industrialização do país, como MIT e Stanford, criadas para atender às demandas de rápido desenvolvimento tecnológico. “Este é um modelo que precisa ser superado”, argumenta Eagleton.

Dirks, deBerkeley, critica também a redução de financiamento do governo e a crença crescente de que a pesquisa (a não “aplicada”) não pode mais ser a missão primária das grandes universidades. Em seu artigo, defende as ações de reformulação tomadas por Michael Crow, president da Universidade do Estado do Arizona (ASU) desde 2002. Segundo Dirks, o modelo milita em favor da ideia de que a pesquisa deve ser mantida como principal característica da Universidade, que “não pode ser dispensada na estrada para educação de massa”.

Assim como a UFABC, no Brasil, a implantação de um novo modelo acadêmico na ASU foi facilitada pela sua atuação discreta – e desacreditada – entre as universidades mais renomadas dos Estados Unidos. Em fevereiro, Crow publicou o livro Designing the New American University (Concebendo a nova universidade americana), obra na qual descreve o modelo implantado, com maior acessibilidade, representatividade regional e nacional.

O plano acadêmico ASU se assemelha bastante ao projeto brasileiro de Bevilacqua ao estabelecer novos modos de combinar disciplinas, nova organização de colaborações baseada em projetos de solução de problemas, novas relações entre interesses acadêmicos, necessidades de pesquisa e os imperativos do setor privado, além de também simplificar o processo de admissão. A produtividade científica cresceu 250% em 13 anos. Apesar dos números, suas propostas inovadoras nem sempre são vistas com bons olhos.

Dirks fala que, a exemplo da visão de Crow, Berkeley também está se reformulando a partir de um modelo de colaboração interdisciplinar e internacional, que, porém, mantém o ensino da graduação central no projeto. O reitor conta que ASU foi importante para levantar o debate nos EUA sobre qual caminho o ensino superior deve seguir. “Hoje existe uma competição entre as universidades americanas para estabelecer seus próprios novos modelos de educação superior. E, enquanto o debate segue, é crucial que o nosso compromisso com a pesquisa mantenha-se firme”, conclui.

No Brasil, interiorização das federais

Para o reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Targino de Araújo Filho, as universidades não se desenvolvem apenas em um movimento de resposta a uma situação que lhes é imposta. “A construção da universidade do futuro é um processo permanente, que já vem sendo desenvolvido nos últimos anos e está em constante aprimoramento”, diz. No caso brasileiro e, particularmente, das universidades federais, o maior desafio, segundo ele, está na interiorização, no esforço de diminuir as assimetrias e levar universidade pública, ensino de graduação e pós-graduação de qualidade, pesquisa e a extensão para todas as regiões do País.

O reitor destaca iniciativas tomadas no sentido da transformação, fortalecimento e democratização das universidades brasileiras: Universidade Aberta do Brasil (UAB), Programa de Extensão Universitária (ProExt), internacionalização no âmbito do programa Ciência sem Fronteiras (CsF), Plano Nacional de Educação (PNE), Agenda de Desenvolvimento das Universidades Federais, desenvolvida pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e entregue à presidente Dilma Rousseff em 2014. “Este documento reconhece a transformação sem precedentes do Sistema Federal de Educação Superior brasileiro ao longo dos últimos 12 anos e, ao mesmo tempo, registra a preocupação com a consolidação desse crescimento e dessas transformações”. Conforme Araújo Filho, a Agenda também registra que a continuidade do processo de expansão e modernização das universidades federais brasileiras precisa considerar as diferentes características de cada instituição.

(Revista Ensino Superior)
Fonte: Jornal da Ciência