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PERFIL DO PROFESSOR PRECISA SE ADAPTAR AOS NOVOS TEMPOS

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16/10/2017 - RIO - No mundo dos negócios, quem aponta os rumos do mercado é a clientela. Se a demanda for maior do que a oferta,
aumenta-se o preço. Do contrário, promoções. Na carreira dos professores os homenageados deste domingo a regra é a mesma.
Por mais que o estudante seja um aprendiz, e não um consumidor, é ele quem determina, no fim das contas, os caminhos da aula. E como os alunos
mudaram, seus mestres precisam se adaptar. Em um mundo cada vez mais digital e de informações acessíveis, a dinâmica de ensino e outra.

Andrea Ramal, consultora em educação e responsável por projetos de formação para professores, explica que há uma grande tendência
mundial chamada metodologia ativa, em que o foco deixa de ser o professor centralizador do conhecimento e passa a ser o estudante
participante, por meio de discussões e tecnologias. Cabe ao docente a função de ensinar o aluno a refletir e discernir as informações.

Não adianta gastar o tempo na sala apenas expondo material. A tendência é deixá-lo ver os vídeos na internet antes e aproveitar o
tempo para fazer estudos de casos, orientações e tirar dúvidas. Isso exige um bocado do professor, porque é mais fácil levar uma aula
pronta avalia Andrea.

Esta mudança é também destacada por João Carlos Padilha e Silva, diretor acadêmico do Centro Universitário Celso Lisboa, e por Cláudio
Tomanini, professor de MBA da FGV. Para eles, não se trata apenas de oferecer avançados recursos tecnológicos (que são relevantes e
bem-vindos), mas, também, criar um espaço em que a proposta central  não é passar adiante o que sabe, mas sim interagir e ensinar o aluno a
questionar, analisar e filtrar a enxurrada de informações recebidas diariamente.

Outro ponto levantado pelos profissionais é que, além de levar o estudante a ser mais analítico, o professor tem o papel de ajudá-lo a
desenvolver sua capacidade de ser um cidadão responsável no uso da informação. Isso significa tanto impedir o aumento da disseminação
de informações falsas pelas redes sociais, quanto saber digerir o que se recebe.

Antes, o professor tinha esse papel de deter a informação e ensinar o que tinha. Agora, ele não é o único a deter o conhecimento.
Essa nova relação mais dinâmica leva o profissional a buscar aulas menos teóricas e a ampliar os recursos didáticos para haver
motivação do aluno corrobora João Carlos.

Tomanini categoriza em três tipos de perfis de professores os mais comuns na pós-graduação. Um deles é o catedrático, que valoriza a
formalidade de 20 anos atrás, em que ele centraliza o poder dentro da classe e o aluno tem que respeitá-lo de forma absoluta.

No outro extremo, diz, está aquele profissional que vê o estudante como cliente e tem medo de não ser querido pelos alunos. Aí, muitas
vezes, a aula vira um show.

E entre eles existe o mais equilibrado, cujo desafio é transformar a aula em algo dinâmico. Esse professor usa ferramentas de vídeo e uma
linguagem mais coloquial, fala da atualidade, e não de cases antigos, integra e reconhece as competências individuais afirma Cláudio
Tomanini, que acrescenta:

O aluno é mais superficial hoje, lê tudo sem se aprofundar. O nosso papel é ajudar a levá-lo a imergir, a ser analítico e crítico.

Segundo o consultor pedagógico da Eleva Educação, Daniel Jacuá, a tecnologia não apenas muda a relação entre professor e aluno dentro
de sala como também pode e deve ser usada para incrementar a aula. Ele exemplifica com questionários online e em tempo real,
vídeos, links, entre outras ferramentas.

Hoje em dia, é preciso interagir com o alunos por meio da tecnologia, pois esta faz parte da realidade deles. O professor precisa
estar atento e inserir na medida do possível. As experiências que estamos tendo dessa inserção tecnológica têm gerado mais impacto do
que os métodos tradicionais afirma Daniel.

OS PLANOS DE CARREIRA

Alunos com mais acesso às informações em um mundo digital crescente transformam a relação entre professor e aluno e o conteúdo
apresentando em classe. E as mudanças vão além disso. Segundo os educadores, incluem salários, plano de carreira e condições de
trabalho.

É uma carreira desafiadora porque, dependendo da rede, as condições são difíceis. Não existe um cenário ideal e, muitas
vezes, não há incentivo para o crescimento. Por outro lado, a despeito das barreiras, vemos em pesquisas que o que mais motiva é o brilho no
dia a dia, o contato com aluno e fazer a diferença na vida de outras pessoas. Houve melhorias na profissão, mas ainda falta muito. É
preciso avançar mais em condições de trabalho e plano de carreira defende Olavo Nogueira, diretor de políticas educacionais da
instituição Todos Pela Educação.

Ele levanta uma outra tendência no mercado: as instituições privadas têm se empenhado em planos de carreira para manter os professores em
período integral, dando fim às jornadas múltiplas um contraponto aos concursos.

É uma tendência tímida, mas há uma percepção em algumas escolas de que esse modelo é benéfico para todos. O professor estreita
os vínculos e tem um plano de carreira, enquanto o aluno e escola ganham a dedicação integral deste profissional.

SALÁRIOS MELHORES

Uma questão antiga e sempre presente na carreira do professor é a remuneração. Nem toda escola pública paga mal. E nem toda particular
remunera bem os seus mestres. Isso vai depender do estado e do município, ou da empresa privada. Os salários, de maneira geral,
estão melhores, ainda que aquém do ideal, segundo os especialistas. 


Nos ensinos fundamental e médio há uma procura maior dos profissionais pelas escolas particulares. Já no superior, os
professores visam mais as públicas. Mas isso é bem relativo. Por exemplo, a UERJ está com salários atrasados, mas tem outras
universidades que remuneram muito bem, assim como há municípios que pagam bem e oferecem uma projeção boa de carreira explica a
consultora na área de educação Andrea.

Tomanini critica o estigma de que professor ganha mal e defende que, se por um lado o ensino no Brasil não é reconhecido e há um grave
problema social e político em torno disso, por outro há caminhos para aumentar a renda.

A regra do mercado já está preestabelecida e o professor entra na carreira tendo consciência disso. Contudo, dentro da profissão dele,
há outros caminhos. Claro que há diferenças sociais, mas o profissional também é responsável por sua transformação. Um exemplo
são os professores de cursinho que conseguem explicar coisas complexas de uma forma que o aluno se identifica argumenta Tomanini. O que
faz um profissional se destacar não é só o esforço, mas também ter uma gestão da própria carreira e ter um olhar de dinâmica
diferenciada dentro da carreira, pensando fora da caixa.

                  Fonte: Portal O Globo