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Qual a educação que queremos para o futuro 

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04/05/2016 - Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES*


Os líderes serão aqueles que conseguirem combinar de forma criativa e audaciosa pessoas com diferentes especialidades, deixando que confrontem seus pontos de vista, criem uma linguagem comum e tenham ideias inovadoras. As ideias advindas da colaboração criativa mudarão a nossa forma de encarar a vida, o mundo dos negócios, as leis, a tecnologia, o sistema educacional, o governo e o mundo. (Robert Hargrove)

O Jornal Nacional de 26.04.2016 exibiu a situação miserável das escolas de Bom Jardim, cidade maranhense de 40 mil habitantes, situada a 280 km de São Luiz. A reportagem de Alex Barbosa mostrou os problemas que os alunos enfrentam para estudar, amontoados em salas apertadas e desprovidas de mínimo conforto e infraestrutura adequada. É espantoso que, alguém possa acreditar que neste ambiente calamitoso, seja possível preparar pessoas para enfrentar os desafios da vida e do trabalho, neste mundo competitivo em pleno século 21. E por mais paradoxal que possa parecer, em 2015 a cidade de Bom Jardim ficou conhecida pela prisão da prefeita acusada de desviar dinheiro da educação e da saúde.

Esse caso não é isolado, existem muitas cidades com escolas como as de Bom Jardim, uma dura é lastimável, realidade. E por consequência surgem a perguntas: Que país queremos ser? Que sociedade desejamos para o futuro e que Educação precisamos ter para este objetivo ser alcançado?

Existem questões básicas norteadoras que precisam ficar permanente em pauta — O Brasil tem plano estratégico de futuro como sociedade organizada? Existe planejamento para o desenvolvimento técnico, cultural e científico? Há um projeto de sociedade para ordenar diretrizes e ações para um plano nacional de desenvolvimento sustentável? Qual o papel da educação nesse plano, neste futuro, nesta construção de sociedade com mais equidade e consentânea com o momento atual?

Somos um país de mais de 200 milhões de habitantes, extremamente desigual em tudo. Nossa riqueza está concentrada em pouco mais de 10% da população. Temos um sistema de saúde em condições precárias com endemias ainda afetando grande parte de nosso território, onde muitas famílias não têm nem saneamento básico. Nosso sistema educacional apresenta deficiências — milhares de crianças não tem creche, outras tantas estão fora do ensino fundamental, e um número expressivo que entra no sistema escolar se evade por motivos vários, que vão da fome, da distância da escola, da falta de condições, entre outras.

O ensino médio é um gargalo que ninguém consegue decifrar apesar das tentativas de novas políticas e estratégias. Pouco mais de 16% da população na faixa etária própria consegue acesso ao ensino superior no qual a heterogeneidade é a grande marca. Neste nível de ensino, o segmento particular é majoritário com mais de 74% das matrículas, embora dependente em boa parte de financiamento público. Temos um sistema político extremamente controverso com uma composição frágil em termos qualitativos, em total desordem organizativa, que deixa o país numa permanente crise de representatividade. Isto sem falar da corrupção que é endêmica.

O mundo passou por revoluções industriais, mudanças nos sistemas políticos e econômicos. Antes eram as máquinas que prevaleciam na produtividade econômica, e hoje já as vemos sendo substituídas por mentes criativas e inovadoras. O mundo do trabalho mudou e com ele empregos e profissões foram engolidos ou tendem a desaparecer sendo substituídos por outros, que nem sequer imaginamos quais serão nas próximas décadas. Entramos no mundo da alta tecnologia, da virtualidade, dos softwares, dos aplicativos que comandam em cadeia parte das mudanças em todos os setores sociais. No entanto, na educação, continuamos a formar e diplomar milhares de alunos que o sistema produtivo não reconhece, com base na falta de proficiência em termos de conhecimentos, competências e habilidades, que por vezes estão desatualizados, quando não inexistentes.

Esta constatação nos obriga a pensar em renovação de todo sistema educacional, no que se refere à infraestrutura das escolas, dos espaços e recursos físicos e principalmente aos didáticos. Precisamos nesse novo mundo repensar o papel dos professores e dos alunos e ter visão transformadora.

Vivemos a era da experimentação, da participação, do coletivo da construção de novos paradigmas que nortearam o processo formativo e instrutivo. A era da imaginação, da inovação e da criatividade contém ferramentas essenciais para a construção de qualquer sociedade que se diz do conhecimento.

O sistema universitário e as empresas empregadoras são mundos desassociados que não interagem entre si. Enquanto as empresas precisam capacitar os egressos das faculdades para atenderem as reais demandas exigidas pelo mercado de trabalho, as escolas estão preocupadas com a entrega dos conteúdos previstos nos currículos e nas avaliações dos organismos reguladores.

E na vida real, quando o estudante “acorda” depois de passar 20 anos por todo o sistema educacional ele se desestrutura. Ele precisa enfrentar desafios e problemas reais, usando não só conhecimentos, mas criatividade, colaboração, comunicação, pensamento crítico, habilidades, valores e atitudes, que nem sempre foram tratados nas diversas etapas de sua escolaridade.

Na semana passada, a revista Veja publicou nas páginas amarelas uma entrevista com Sir Ken Robinson, um dos maiores experts do mundo em criatividade. Ele disse que “o sistema educacional não foi desenhado para encorajar a criatividade” e que “os professores precisam mudar suas estratégias de ensino e torná-las mais adequadas à realidade”. Ele apresentou o exemplo de “ensino mais flexível”, a High Tech High (HTH), uma rede de escolas na Califórnia. Lançada no ano de 2000, trata-se da aliança de líderes de negócios e de educadores da cidade de San Diego, que formaram uma rede integrada de escolas. Esta abrange o ensino fundamental de um programa de certificação de professores e uma escola inovadora de Pós-Graduação em Educação. Como no exemplo citado, precisamos ser mais proativos, precisamos aprender a nos realizar como pessoas e como profissionais, como nos diz o educador José Morán em seu livro “A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá”.

Diante de tudo isso, somos forçados a pensar em mudanças que partem primeiro de nós mesmos para depois as incorporarmos ao sistema, corrigindo os atrasos e recuperando o tempo perdido, a credibilidade e a confiança. Somente com esse processo do micro para o macro, ou seja, de nós para a sociedade, será possível corrigir rotas, cortar os excessos de sempre fazer as mesmas coisas, para que, finalmente, possamos invadir o terreno do futuro e ousar pensar, planejar antes, construindo uma nova perspectiva de futuro e rompendo definitivamente com o passado.

Talvez a partir daí possamos começar a pensar seriamente qual é o futuro da nossa educação e qual é nossa utopia educacional e/ou sonho para o Brasil. Enquanto vivermos correndo atrás dos prejuízos da corrupção e da desordem política, continuaremos a desperdiçar o talento e o futuro de jovens brasileiros, como os alunos da cidade de Bom Jardim (MA), apresentados na reportagem. Mas sonhar é preciso e dia virá que nosso Brasil terá uma educação de qualidade onde todos possam se sentir cidadãos e sonhar, sendo capazes de mudar sua realidade. Uma utopia, sim, mas tomada, como espaço do possível.



* Gabriel Mario Rodrigues deixa a presidência da ABMES em 3 de maio de 2016 e assume a presidência do Conselho de Administração da entidade.

Fonte: Portal ABMES

Notícia disponibilizada, também, no Portal www.cmconsultoria.com.br